Diários de Atrus sobre Era Channelwood

Tradução e comentários por: Adriana B. Portes.
Sobre a Era Channelwood.
Encontrado em MYST I e Real MYST.
Biblioteca no centro da Ilha MYST.
Primeira prateleira de madeira da Biblioteca.
Escrito por Atrus.
Descreve a Era Channelwood criada por Atrus.
Dividido em vinte e quatro páginas.
Escrito a mão com desenhos.
Capa decorada com filigranado oriental.
Incluí alguns comentários e especulações.
Esta tradução é livre e cabe correções se necessárias.

Eu tenho chamado esta Era de Channelwood, este é um mundo muito diferente. Esta Era foi elaborada exatamente como eu imaginava e ainda fico maravilhado ao ver este lugar com meus próprios olhos. Por mais longe que eu possa ver, esta Era é completamente coberta de água, com exceção de uma pequena ilha de rochas. No restante do lugar há apenas grandes árvores que parecem brotar diretamente de dentro da água. Há também uma miríade de passagens feitas de madeira, construídas acima da água que desaparecem pela floresta. Eu acredito que estas passagens foram construídas depois do aparecimento desta Era. Eu estou estudando o local, para descobrir mais a respeito desta terra e das pessoas que vivem aqui. Mas eu cheguei aqui um pouco tarde e preciso descansar…

Eu acordei esta manhã com um estranho barulho vindo de uma passadiça adjacente a qual eu escolhi para dormir. Eu vi um grupo de primatas meio humanos, olhando em minha direção. O grupo não tinha me visto até aquele momento e eu não senti hesitação ou medo por causa de sua presença. Eles agiram com a minha presença de uma forma que eu nunca esperaria, depois de ficarem parados por alguns segundos me olhando, eles caíram de joelho e me fizeram uma espécie de cumprimento cerimonial cheio de deferência. Eu tentei falar com eles, mas eles não entenderam o que eu dizia. Mesmo assim eles me acenaram com entusiasmo e me indicaram o caminho que eu deveria seguir junto a eles. Então nós caminhamos juntos pelas passadiças.

Enquanto eu caminhava com eles, descobri que as águas abaixo das trilhas de madeira mudavam de cor. Lentamente elas mudavam de um azul profundo para um alaranjado caudaloso e do alaranjado caudaloso para uma água límpida e cristalina. Eu fiquei muito intrigado com esta característica da água. Então neste meio tempo cheguei a uma escadaria. Subi pela escadaria até chegar a uma espécie de vila suspensa, este lugar somente poderia ser alcançado através de escadas, e as habitações se conectavam através de várias passadiças entre as grandes árvores. Foi muito interessante observar este povo carregando suas coisas e fazendo suas tarefas diárias andando pelas passadiças.

Fiquei os observando por horas, não entendendo exatamente o que eles estavam fazendo, então chegou o pôr-do-sol eles me fizeram um sinal para seguí-los. Eu segui as criaturas até a entrada de uma cabana, estranhamente quando eu estava dentro do abrigo, ele me pareceu bem maior do lado de dentro do que do lado de fora. As paredes estavam decoradas com metais brilhantes e no centro desta cabana estava o líder deste povo. Pelo menos para mim pareceu ser o líder, ele estava sentado há um metro do chão sob um trono largo. O líder vestia coloridas roupas exóticas e estava fortemente guardado por criaturas que o cercavam por todos os lados. Ao lado da grande criatura, que era o líder, estava um homem muito idoso, pelo menos me pareceu humano. Seu cabelo, que era a única coisa que aparecia abundantemente estava completamente cinza, quase branco e era extremamente longo cobrindo parte do seu corpo, sua cabeça estreita era guarnecida por um grosso pescoço, que não se virou para me ver imediatamente. Mas fiquei surpreso quando descobri que a criatura podia falar o meu idioma. Rapidamente fui inundado de uma estranha emoção, contudo rapidamente ele me falou para eu ir dormir, e ganhei uma cama e outros instrumentos para meu conforto e pude olhar com mais atenção para o lado de fora do abrigo, onde eu buscava aprender mais.

Como eu suspeitava a criatura idosa era um humano, mas ele estava muito velho, e parecia não perceber a sua própria senilidade, ele me pareceu quase insano. Todavia os Moradores das Árvores, o veneravam como um Deus. Eles estavam tentando me vestir com o mesmo tipo de roupa do idoso, e isso me deixou muito constrangido. Era quase impossível entender este homem velho, sua voz era doce, mas selvagem, ele adotou um sotaque característicos dos Moradores das Árvores, então ele me explicou que não falava sua língua nativa há anos. Ao mesmo tempo ele tentou me explicar a história daquele lugar eu tentei traduzir da melhor maneira, tudo que ele me disse.

Muitos anos atrás, os humanos e os Moradores das Árvores, viviam juntos neste lugar, que era uma vasta e única ilha. Eles interagiam muito pouco, os humanos habitavam o solo e os Moradores das Árvores sempre viveram muito acima dos humanos, no topo das árvores. Posteriormente a ilha sofreu um distúrbio misterioso, ela foi sacudida sistematicamente, talvez algum efeito de transição tectônica efetivada por ação vulcânica, eu creio… Às vezes os tremores eram leves, outra vezes eram rigorosos. Após algum tempo os tremores começavam a ficar rápidos e fortes, e depois tudo voltava ao normal.

Um dia as coisas mudaram, os tremores começaram de uma hora para outra e rapidamente ganharam força, subindo a níveis sem precedentes. Então a ilha subitamente começou a afundar em meio ao oceano que a cercava. Muitos humanos morreram naquele dia, mas sem antes sacrificarem alguns outros, pensando em deter a inundação. Os humanos que conseguiram sobreviver a esta catástrofe, mudaram-se para cima das árvores, onde eles gradualmente foram morrendo, talvez porque eles não estivessem acostumados com a vida nas alturas, mas eu não tenho certeza disso.

Esta foi a história que o velho homem me contou, mas muitos detalhes ficaram obscuros em minha mente. Eu fiquei muito confuso, pois queria saber como os humanos salvaram a pequena ilha de rochas do completo desaparecimento na inundação. De fato duvidei da veracidade da história, principalmente na parte em que ele dizia que a ilha devia ter parado de afundar por si própria. Ainda que o idoso acreditasse na veracidade da história, tanto como uma testemunha ocular do acontecimento, eu duvido de alguns pontos. E os Moradores das Árvores parecem trabalhar para ele… Aparentemente todos os humanos são tomados como heróis ou deuses.

O velho homem terminou nossa conversa, com um evento o qual eu nunca esquecerei. Ele comprimiu minhas mãos suavemente, murmurando alguma ladainha, sobre descansar e dormir. Ele então disse: nos esperávamos que você tivesse vindo mais cedo. Estas ações pararam abruptamente, isso me encheu de terror. Com muito esforço ele ficou de pé, eu tentei ajudar, mas ele me puxou junto a sí com uma força que eu nunca imaginaria que seu frágil corpo tivesse. Os Moradores das Árvores, silenciosamente, cercaram-me com as faces solenes. Então eles se ajoelharam em minha frente. Ele caminhou próximo a cada um e pôs a sua mão na cabeça de cada uma das criaturas, enquanto isso ele murmurou palavras que eu não conseguia entender. Finalmente ele se voltou para mim e sorriu. Então ele fechou os seus olhos, e caminhou até a porta, saindo para um das passadiças mais altas entre as árvores. Os Moradores das Árvores permaneceram em silêncio. Então eles começaram uma pequena procissão na passadiça mais embaixo, próximo a uma escadaria. Enquanto eu descia eu vi vários deles pegarem o corpo, o velho homem havia caído durante sua caminhada para o nível mais abaixo, e o carregaram pelo caminho. Ele então foi depositado em uma área sem saída na beira de uma estrutura que lembrava um ancoradouro. Com o uso de um líquido estranho, trazido por um dos Moradores das Árvores, eles atearam fogo no corpo do ancião. Foi um funeral estranho. As águas em torno do pequeno ancoradouro, mudaram de cor para um verde escuro e espesso.

Esta manhã eu acordei achando difícil acreditar nos acontecimentos da noite anterior, a água continuava com a cor verde escura até onde eu pude ver. Por alguma razão, a água não parecia mudar mais de cor. Então eu andei pelo caminho da passadiça e as criaturas ficaram me observando, curiosos para ver o que eu faria em seguida. Eles ficaram constantemente me oferecendo estranhos artefatos de adoração. De qualquer forma eu sempre encontrava comida do lado de fora da porta onde eu dormia. Esta era a única raça de seres neste lugar. Eu espero aprender a língua deles o mais rápido possível, então aprender mais sobre eles.

Eu estou morando nesta Era há três meses, e os Moradores das Árvores me mostraram ter grande hospitalidade. Eu estou começando aprender pequenos sons do dialetos deles. Eu decidi retornar para casa, para passar um tempo com minha amada esposa, e meus filhos, e quem sabe poder voltar aqui com eles. Em todo caso, eu tenho certeza que Catherine, novamente irá se recusar a vir. Mas eu creio que esta Era será um mundo maravilhoso como uma nova experiência para eles todos, pelo menos para que eu possa ver como Sirrus e Achenar irão reagir perante estes curiosos habitantes.

Catherine ficou para trás esperando… Meus filhos retornaram comigo, e eles adoraram esta Era. Eles aparentemente deram-se muito bem com os Moradores das Árvores, e estão aprendendo rapidamente o seu idioma de forma surpreendentemente rápida. Eu não tenho dúvida que não tardará muito para que ambos possam falar livremente com os Moradores das Árvores, muito melhor do que eu falo.

Amanhã eu estou indo embora para checar a Era Osmoian. Sirrus sugeriu que ele e seu irmão poderiam ficar. A idéia me inquietou um pouco, eu sei que os meninos estão crescendo rapidamente. A hospitalidade destas criaturas é surpreendente e isso parece criar um excelente lugar para os meninos ficarem por um pequeno tempo. Então eu acho que irei consentir com o pedido deles. Eu alertarei os meninos para que eles não tirem vantagem, e ao mesmo tempo, respeitem as idéias dos Moradores das Árvores… Me pareceu que eles entenderam meu alerta e creio que ambos irão seguir minhas recomendações.

A contra gosto eu preciso checar Everdunes. Eu sei que Pran e seu povo, continuam sendo ameaçados por Chochtic. Eu temo por sua sobrevivência, ao mesmo tempo eu planejo voltar logo para dar uma olhada em, Sirrus e Achenar aqui. Preciso antes ver o Diário de Everdunes para saber mais a respeito. Após ver Sirrus e Achenar, e ter certeza que eles estão se virando sozinhos, eu acho que poderei descansar um pouco e me despreocupar sobre deixar eles ficarem novamente por um curto período em Channelwood.

Foi imperceptível a mudança de humor dos Moradores das Árvores com a minha partida, contudo eles ficaram muito felizes com a chegada de Sirrus e Achenar e a estada deles aqui. Eu tive que viajar durante três dias para visitar diversos lugares. Então eu precisei falar com Sirrus e Achenar a respeito da morte de Pran hoje, eles ficaram muito chocados, apesar deles apenas lembrarem dela da época de sua infância. Catherine sugeriu que seria bom deixar Sirrus e Achenar por um tempo em Channelwood e eu concordei com a idéia. Eles irão retornar comigo e depois eu os deixarei novamente.

Eu disse ao meus filhos, que eles deverão retornar comigo em dois dias. Eles passaram a noite inteira falando de suas aventuras e suas experiências na minha ausência, e realmente isso foi maravilhoso. Aparentemente eles construíram um barco com as criaturas e viajaram por alguma distância, ouvindo o som das águas. Eu fiquei muito feliz ao ouvir as suas aventuras, e lembrando de minhas próprias aventuras no tempo que eu era criança.

Eu finalmente entendi por que os Moradores das Árvores me deram muitos recipientes com diversas tintas e ficavam insistindo para eu escrever com as mesmas. Olhando meus registro anteriores, eu notei que a cor mudou de preto para várias cores diferentes. Eu mostrei meus diários para algumas das criaturas, e elas riram e sorriram, eu não sabia que as criaturas tinham senso de humor. Mesmo agora eu fico observando as palavras tão coloridas em meu diário, e eu mesmo não entendo, mas elas não me parecem divertidas.

Nós iremos retornar amanhã, então meus filhos irão ficar esta última noite com as criaturas, eles me disseram que querem voltar a Channelwood novamente e também perguntaram, se eles podiam visitar outras Eras sozinhos. Eu prometi que iria pensar neste pedido. Eu creio que eles devem provar que já tem senso de honestidade e responsabilidade. Catherine terá que me ajudar a este respeito, para que nós possamos decidir juntos, quando eles poderão viajar sozinhos. Por enquanto eu devo me despedir das criaturas, pois eu não sei quanto tempo eu levarei para visitar esta Era novamente…

Observações sobre o Diário.

Atrus cita duas de suas Eras, Everdunes e Osmoian. Creio que o nome Osmoian deve ser derivado do jogo anterior a MYST criado pelos irmãos Millers chamado Cosmic Osmo, que era voltado para educação infantil. O interessante é a citação a respeito de Everdunes, aparentemente há um disputa de poder nesta Era e uma mulher chamada Pran perdeu a vida envolvida nesta trama de poder. Não sabemos ao certo se Sirrus e Achenar aproveitaram o ensejo para ter uma desculpa para voltar a Channelwood, ou se realmente sentiram pela morte de Pran.

Sirrus e Achenar, parecem ser apenas dois pré-adolescentes no período em que Atrus escreve seu Diário sobre a aventura dos filhos em Channelwood. De qualquer forma Atrus e Catherine, não notam nada de anormal nos meninos. Não podemos ter certeza até que ponto a convivência com as criaturas, chamadas de Moradores das Árvores, influenciaram a vida e o modo de agir de Sirrus e Achenar. Contudo eles pareciam ser tratados como reis ou semi-deuses no local.

Diários de Atrus.

Estes diários são a fonte mais importante de informação da Série MYST, e do enredo envolvendo a família de Atrus. Nos diários é possível ler desde acontecimentos privados até relatos sobre a construção de determinadas Eras. Um dos diários mais interessantes é aquele encontrado em MYST III Exile, onde Atrus, escreve sobre a excursão feita até as ruínas da Cidade D’ni e a construção da Era Releeshahn. Através destes diários também é possível traçar um perfil do autor e de sua família, principalmente nos trechos que narram as ações de seus dois filhos, Sirrus e Achenar. Enfim, além de tudo isso, também é possível encontrar muitas pistas sobre qual o procedimento que o jogador deve tomar em cada um dos jogos da Série.

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